Método de estudo · Concursos

Estudar com IA para concursos: como usar sem prejudicar o aprendizado

Por Prof. Marcelo Soares Auditor da CGE-MT Publicado em 08/09/2026

Semanas atrás entrevistei quatro alunos aprovados no concurso da Câmara dos Deputados. O que mais me chamou atenção não foi o que eles disseram, foi um comentário no vídeo: alguém perguntou por que nenhum dos quatro mencionou ter usado inteligência artificial nos estudos. A dúvida por trás dessa pergunta é a mesma de muita gente. Vale a pena usar IA para estudar? Tem alguma vantagem nisso?

Resposta rápida: dá para usar, desde que a IA te faça estudar mais e melhor, e nunca te entregue a resposta pronta. As primeiras pesquisas que associam inteligência artificial a uma queda no aprendizado observaram justamente o comportamento de pedir a resposta. Os usos que somam são outros: gerar flashcards de um texto que você precisa memorizar, descobrir quais fontes as bancas usam sobre um tema e pedir exemplos de um conceito que ficou obscuro. E vale uma regra de bolso: quanto menos você domina um assunto, menos pode delegar, porque você não tem como julgar se a resposta veio certa.

Assista à explicação completa

Este artigo é a versão escrita do vídeo em que trato do assunto no canal. Assista abaixo (ou direto no YouTube):

Neste artigo

  1. O que as primeiras pesquisas mostram
  2. O chatbot não foi feito para te ensinar
  3. A calculadora, a agenda do celular e o Waze
  4. O que você perde quando pede a resposta
  5. Três usos de IA que fazem você aprender mais
  6. A regra de bolso: seu domínio define o quanto delegar
  7. O risco escondido: transferir o julgamento crítico
  8. Perguntas frequentes

1. O que as primeiras pesquisas mostram

Como toda tecnologia nova, a IA chegou cercada de uma áurea de que você deve usá-la agora, para tudo e para todos. Então vale a pena olhar o que a ciência já conseguiu apurar.

Se você fizer uma busca rápida, vai encontrar algo incômodo: os maiores estudos que temos hoje associam o uso de inteligência artificial a uma queda no aprendizado. Isso quer dizer que a IA é uma vilã? Não é isso. Quer dizer que estamos num momento de transição, de compreensão sobre como essa ferramenta pode ser aplicada de forma inteligente para aprender.

Porque o detalhe que muda tudo está na metodologia dessas pesquisas. O comportamento observado nelas, o comportamento que aparece ligado à atrofia cognitiva e à queda de notas, é um comportamento bem específico: o de usar a IA para obter a resposta.

2. O chatbot não foi feito para te ensinar

Os modelos que a gente usa hoje, quando pensa em ChatGPT, Gemini ou Claude, são modelos pensados em eficiência de trabalho. Eles foram construídos para te dar uma resposta de maneira eficiente, para reduzir o tempo de execução de uma tarefa. É para isso que servem, e nisso são muito bons.

Só que, quando a gente olha para o aprendizado, essa não é exatamente a melhor métrica. Aprender exige o percurso. Reduzir o tempo entre a sua dúvida e a resposta pronta é justamente eliminar a parte em que o aprendizado aconteceria.

Não é questão de prompt: não estou falando de truque, de mágica, de fórmula secreta de comando. Usar IA da maneira correta dentro do processo de aprendizado significa usá-la para te fazer entender melhor o assunto, e não para te dar a resposta. A diferença está na intenção do pedido, não na forma de escrevê-lo.

3. A calculadora, a agenda do celular e o Waze

O paralelo mais fácil é com a calculadora. Se você usar uma calculadora para resolver uma equação, ela vai te dar a resposta daquela conta. Mas isso vai te fazer aprender a resolver aquilo? Vai te fazer entender o processo necessário para chegar naquele resultado? Claro que não.

E dá para ver o mesmo efeito em outras tecnologias que já usamos há mais tempo. Antes de o celular se popularizar, a gente decorava telefone de gente, decorava nome de rua, decorava o caminho para chegar nos lugares. Com a agenda do celular e o GPS, fomos deixando de exercitar essas habilidades. Hoje é difícil encontrar alguém que lembre o telefone de dez amigos, mesmo os próximos, porque essa pessoa confia no aparelho.

E tudo bem fazer essa transferência quando se trata de atividades secundárias. O problema é fazer isso dentro do processo de aprendizado, onde a delegação precisa ser bem mais parcimoniosa. Porque lá no dia da prova quem responde é você. É você que tem que dominar o conteúdo, é você que vai ter que resolver a conta, é você que vai precisar dominar os conceitos de Administração, de Direito Administrativo, de Direito Constitucional. Não o ChatGPT, não o Gemini.

4. O que você perde quando pede a resposta

Volte ao Waze por um segundo. Quando você só quer a resposta que o aplicativo dá, você deixa de prestar atenção na rua, deixa de reparar no caminho, deixa de fixar as referências visuais que fariam você aprender aquele trajeto. Você chega, mas não aprende a chegar.

Com a IA acontece igual. Se você põe o ChatGPT para comentar uma questão por você, ou para te entregar o resultado de um cálculo, você chega à resposta daquele item e não aprende o conteúdo. O que as pesquisas apontam nesse comportamento é uma lista curta e cara:

O custo de terceirizar a resposta: queda nas notas, atrofia cognitiva, perda de autonomia e uma ilusão de produtividade. Você tem a sensação de ter avançado bastante, mas o conteúdo não ficou.

5. Três usos de IA que fazem você aprender mais

Entendido o cuidado, vamos ao que funciona. Toda aplicação boa de IA no aprendizado passa por te fazer estudar mais, estudar melhor e estudar com mais profundidade. Nunca por te dar a resposta.

1. Gerar flashcards de um texto que você precisa memorizar

Precisa memorizar lei seca? Pegue o texto legal, coloque numa ferramenta como o NotebookLM e peça que ela gere flashcards a partir dele. O ganho não está no arquivo que sai: está no processo. Você lê o dispositivo com mais atenção, percebe detalhes que passariam batido numa leitura corrida e depois responde os cards de forma ativa, vendo o que acertou e o que errou. Isso memoriza muito melhor do que reler.

2. Descobrir as fontes que as bancas usam

Apareceu numa questão uma teoria que você nunca tinha ouvido falar. Pedir para o ChatGPT comentar essa questão é loucura, e já explico por quê. Mas há um uso ótimo ali: peça a ele, na busca profunda, os referenciais sobre aquele tema. Quais são os livros nacionais, quais são as fontes que as bancas organizadoras costumam usar. Aí você vai até a fonte indicada, estuda a teoria nela e confere se há correspondência com o enunciado da questão. Você usou a IA para pesquisar com mais assertividade, e estudou no material de verdade.

3. Pedir um exemplo quando o conceito não fechou

Você leu o material sobre determinada teoria e ficou nebuloso. Pedir um exemplo prático, uma explicação por outro ângulo, é um uso legítimo: continua sendo você estudando o conteúdo, só que com mais um apoio. Mas repare que esse uso pressupõe uma base. Você precisa ter lido o material antes para saber se o exemplo que veio faz sentido.

6. A regra de bolso: seu domínio define o quanto delegar

Se for para guardar uma frase deste artigo, guarde esta: a sua capacidade de usar IA num tema é proporcional ao seu conhecimento sobre aquele tema.

Quando você domina um assunto e pede uma resposta à IA, você tem condições de avaliar o que voltou. Consegue dizer se está boa, se está insuficiente, se está inadequada, se está simplesmente errada. Quanto mais você conhece, mais consegue transferir atividade para a ferramenta com segurança, porque você continua sendo o filtro.

Quando você não domina, é o contrário: qualquer coisa que ela responder vai parecer correta.

O que dá para pedir à IA, conforme o quanto você já sabe NÃO DOMINA O TEMA Peça fontes e referências. Estude direto na fonte, nunca na resposta pronta. DOMINA EM PARTE Peça exemplos e outra explicação do conceito. Confira no material. DOMINA BEM Aí dá para pedir a resposta: você tem repertório para julgar se ela presta. pouco domínio muito domínio quanto mais você domina, mais dá para delegar com segurança sem domínio, delegar a resposta é delegar junto o julgamento
A régua do bom uso: o que você pode pedir à IA depende do quanto você já sabe sobre aquele assunto específico.

7. O risco escondido: transferir o julgamento crítico

Aqui está a parte que mais preocupa. Os modelos que a gente usa são, essencialmente, modelos de texto. O texto deles é persuasivo. Ele convence. A IA pode estar falando uma atrocidade, uma coisa completamente errada, mas o texto vem tão bem construído que você acha que está correto.

Por isso, quando você pede uma resposta que não tem condições de avaliar, você não está transferindo só a execução da tarefa. Está transferindo o julgamento crítico junto. E aí não dá para ponderar se aquilo é bom ou ruim: você assume como verdade algo que talvez esteja errado, estuda em cima disso e atrasa a sua aprovação.

Na prática: se o tema é novo para você, não peça a resposta. Peça as fontes, vá até elas e estude o conteúdo. Depois de dominar, aí sim você pode voltar e usar a IA de forma mais solta, porque agora existe alguém capaz de conferir o que ela diz. Esse alguém é você.

Resumo

Estude com método, não no achismo

A IA ajuda quando entra num estudo que já tem estrutura. É isso que a preparação Faixa Preta entrega: conteúdo no recorte da sua banca, questões comentadas pelo professor e um caminho claro do que estudar primeiro, para você chegar na prova dominando o conteúdo de verdade.

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Perguntas frequentes

Vale a pena usar IA para estudar para concursos?
Vale, desde que ela te faça estudar mais e melhor, e nunca te entregue a resposta pronta. Serve para gerar flashcards, achar fontes e pedir exemplos. Não serve para te dar gabarito, comentário de questão ou resultado de cálculo.
Por que os estudos associam o uso de IA a uma queda no aprendizado?
Porque o comportamento observado é o de pedir a resposta. Os chatbots foram construídos para reduzir o tempo de execução de tarefas, e aprender exige exatamente o percurso que eles encurtam.
Posso pedir para a IA comentar uma questão de concurso?
Se o tema é novo para você, não. Sem conhecer o assunto você não consegue julgar se o comentário está certo, e o texto persuasivo faz um erro parecer correto. Use a IA para achar a fonte e estude nela.
Como usar a IA para gerar flashcards da lei seca?
Coloque o texto legal numa ferramenta como o NotebookLM e peça os flashcards. O ganho está no processo: leitura mais atenta, percepção de detalhes e revisão ativa depois.
Quanto dá para delegar à inteligência artificial nos estudos?
Depende do seu domínio naquele assunto. Quanto mais você conhece, melhor consegue avaliar a resposta e mais pode delegar. Sem domínio, você delega junto o julgamento crítico.
MS

Prof. Marcelo Soares é professor de Administração e Auditoria para concursos e auditor da CGE-MT (Controladoria-Geral do Estado de Mato Grosso), com quase 10 anos de experiência na área de controle interno e aprovado em 10 concursos públicos.

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